terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A garota da minha vida - Capítulo 12



Capítulo 12

CLARICE

Autor: Thales Mendes


O que a gente faz pra passar o tempo? Ou, melhor dizendo, o que a gente faz quando o tempo simplesmente não passa?




Eu nunca vivi dias tão longos como esses. Músicas não ajudam. Livros não ajudam. Internet não ajuda. Já sacudi mais de uma vez o relógio de casa pra ver se ele não estava com defeito. Mas aparentemente ninguém mais notou que o mundo tá parado desde aquela noite.

Ah, aquela noite. Eu sempre pensei em mim mesma como uma garota centrada, madura, que sabe se comportar mesmo quando a situação é um pouco mais complicada. Nunca pude imaginar o quanto estava errada.

Eu devo ser a pessoa mais estúpida da história.

Eu tinha uma vida boa. Cheia de amigos. Completamente apaixonada pelo Samuel, meu namorado. E, em algumas semanas, tudo desmorona. Ultimamente, não tenho tido vontade nem de falar com a Lana, não quero sair de casa de jeito nenhum, não sei notícias de mais ninguém e o Samuel, agora meu ex, me odeia.

Não estou sendo dramática. Não estou inventando. Eu sei que ele me odeia porque fui atrás dele, procurei-o na faculdade pra tentar conversar e pedir desculpas. Esperei pelo intervalo entre as aulas e, quando finalmente o vi, ele me olhou sem esboçar nenhuma relação e disse:

“Não quero falar com você, Clarice. Vê se me esquece”.

E saiu.

Ele poderia ter me sacudido e gritado comigo, que teria sido melhor. Aquelas palavras e aquela indiferença doeram tanto que eu fiquei ali, parada, atônita, procurando algo em que me apoiar enquanto ele passava por mim e ia embora.

Voltei pra casa tentando desesperadamente esconder meu rosto pras pessoas não notarem o quanto eu estava chorando. Não sei se funcionou.

Quando cheguei, vi uma chamada do Lucas no meu celular, e a última gota de sabedoria que eu tinha me impediu de arremessar o celular na parede.

Lucas. Tudo culpa dele. Eu não consigo entender como é que eu fui cair nos encantos daquele garoto. Sempre olhei praquelas meninas que terminam o namoro e saem por aí beijando o primeiro que aparece, e tinha certeza de que, se um dia o meu namoro terminasse, eu jamais seria uma delas. E, analisando friamente, eu fui pior: o namoro não estava nem terminado direito, e lá estava eu, beijando outro garoto.

E o pior de tudo, mesmo, não foi ter beijado o Lucas. E nem o fato de ele ser o melhor amigo do Samuel. Foi (e eu nunca vou dizer isso a ele) ter gostado daquele beijo. Como eu queria não ter gostado. Como eu queria que aquelas tardes de conversa e música na casa dele não tivessem sido tão boas. Como eu queria ter dado um tapa no Lucas, ter saído correndo, ter dito pra ele não me ver nunca mais. Mas tem alguma coisa naquele garoto meio sonso, atrapalhado, tímido, que eu não sei explicar…

“O que você quer, Lis?”, a Lana me perguntou da última vez que a gente se falou, e desde então essa pergunta tá aqui, martelando, me deixando noites sem dormir. É horrível não saber a resposta de uma pergunta tão simples.

A verdade é que eu não consigo me entender, e isso me deixa furiosa.

As coisas deveriam ser simples. Eu gosto dele, eu quero ficar com ele, se ele gostar de mim também, então ótimo. Mas eu não sei quem é “ele”, então tudo isso complica um pouquinho.

E, como se não bastasse, só pra colocar uma cereja no bolo da confusão, tem o show da banda deles. Quer dizer, um show de verdade, o primeiro, o sonho de todo mundo se concretizando. E eu brigada com o vocalista e sem saber o paradeiro do resto da banda. E pensar que, se esse show tivesse acontecido há algumas semanas, eu teria sido a primeira a saber. O Samuel teria me ligado, em êxtase, e a gente teria comemorado juntos, provavelmente com ele me pegando no colo e me girando por aí, como ele fazia quando estava feliz. E eu estaria transbordando de orgulho, porque sei, melhor do que ninguém, o quanto o Samuel batalhou por aquilo.

Não que os outros não tivessem batalhado. É que, pra eles, a banda é uma diversão, um hobby que eventualmente pode acabar. Pro Samuel, não. Aquela banda é a razão da vida dele, e eu também sei disso melhor do que ninguém, já que foi por ela que brigamos, pra começo de conversa.

Enfim, por mais triste que isso seja, eu não tenho dúvidas de que o melhor a ser feito é me manter o mais longe possível desse show. Eu tenho estragado tanta coisa ultimamente que é capaz de eu ir ao show e o palco cair, ou algo assim. Mas só tem um problema, e o nome dele é Lana. “Você não está pensando em faltar ao show, né? Ai de você se não aparecer, Lis! Eu nunca mais olho na sua cara! E eu vou saber se você foi ou não, porque provavelmente não vai ninguém, então vai ser fácil reconhecer nossa plateia”. Foi mais ou menos isso que ela me disse, antes mesmo de eu dizer que não queria ir ao show, provando que me conhece muito melhor do que eu mesma me conheço.

Pois é. Ela me fez prometer que eu iria. E, embora eu duvide um pouquinho que a Lana nunca mais vá olhar na minha cara se eu não aparecer, acho que ficaria triste de verdade. E uma coisa é brigar com o Samuel e com o Lucas ao mesmo tempo, mas outra, bem diferente, é brigar com a Lana… isso eu não suportaria de jeito nenhum.

Então, lá estava eu, recém-banhada, procurando alguma roupa legal pra ir ao show e pensando em algum jeito de não mostrar ao mundo que tava há uma semana sem dar a mínima atenção pra minha aparência. Mas maquiagem não é milagre, e meu espelho não mente: eu estava um caco.

E, no caminho do show, uma dúvida me ocorreu: será que o Lucas estaria lá? Será que ia tentar falar comigo? E, se tentasse, o que eu faria?

“Eu quero desesperadamente voltar pra casa”, pensei.

Mas meus pés continuaram me guiando e, sem muito ânimo, segui em frente. O show ia rolar em um barzinho, o Clave, que quase sempre tem música ao vivo pra animar a galera. E, nas noites de sábado, eles tiram todas as mesas e cadeiras e deixam o bar todo pra uma banda só. É muito legal pensar que, dessa vez, eu conhecia a banda da noite. Aliás, como eu vim a descobrir olhando um cartaz simples pendurado na parede da entrada do bar, a banda da noite agora se chama Amigos de Michelangelo. Imaginei como deve ter sido o debate pra escolha do nome: a Lana toda feliz, o Samuca todo emburrado. Não pude deixar de sorrir imaginando a cena. E depois morri de vontade de chorar, por ter perdido tudo isso (e quem sabe o quanto mais?).

Faltavam uns 30 minutos pra começar quando entrei no Clave que, pra minha surpresa, até estava cheinho. Várias rodas de amigos já estavam lá, e pude reconhecer alguns rostos da faculdade do Samuel. Não quis falar com ninguém.

Passei correndo por eles e, pra evitar ser vista, fui pro fundo do bar, bem longe do palco.

Logo descobri que chegar cedo demais foi uma ideia ruim. Com o tempo se arrastando, minha ansiedade crescia: eu tinha certeza de que alguma coisa daria errado. Mandei uma mensagem pra Lana, dizendo Tô aqui!, e vários minutos se passaram antes da resposta chegar.

Oi, Lis! Finalmente uma notícia boa =D Eu sabia que vc n ia deixar a gt na mão!

- Aconteceu alguma coisa? – eu digitei, aflita.

Várias!!!!

Uma observação sobre a Lana: vira e mexe, ela manda essas mensagens misteriosas pra matar a gente do coração, em que diz que “alguma coisa aconteceu”, mas não diz “o quê”.

O quê, Lana???

- Bom, primeiro o Tuca ñ vem mais. Depois a Emily apareceu de perna quebrada essa semana, tá mais carrancuda do que o normal. Depois o Samuel fez um discurso lindo e todo mundo quase chorou (e a Emily quase sorriu). E agora o Lucas tá aqui conversando com o Samuel há um tempão!

Realmente, era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. E eu talvez até tivesse dado atenção pro resto, se não viesse aquela última frase. “O Lucas tá aqui conversando com o Samuel”. Esse garoto é louco? Será que não bastava a última “conversa” dos dois? E agora ele quer tirar o Samuel do sério antes do show da vida dele? Comecei a ficar agitada, e queria tanto entrar lá e separar os dois quanto sair daquele lugar e voltar correndo pra casa. Na dúvida, fiquei parada exatamente onde estava.

Meu celular vibrou de novo:

- Ai, que lindo, eles fizeram as pazes <3 <3
 
Me apoiei na parede, meio sem ar, certa de que não estava entendendo mais nada. Como assim, eles fizeram as pazes? O que será que tá acontecendo?

Não que aquilo fosse ruim, é claro. Mas há alguns dias eu tinha ido tentar fazer as pazes com o Samuel e ele me ignorou por completo. O que é que tinha mudado? O Lucas é tão culpado nessa história toda quanto eu! Ou será que não?

De qualquer forma, não havia tempo pra nada. Peguei meu celular, desejei Boa sorte! pra Lana, e fui procurar um lugar legal pra ver o show (afastada de todo mundo, de preferência). Deveriam ter umas trinta ou quarenta pessoas no salão, um público surpreendentemente bom para a estreia da banda.

Tava tudo pronto. No palco, a bateria da Emily já montada, e os microfones devidamente posicionados. Impossível não me sentir ansiosa, empolgada e orgulhosa dos meus amigos, afinal de contas. Teria sido muito melhor se eu estivesse ali, com eles, mas ainda assim, aquilo era demais.

Peguei meu celular para tirar algumas fotos quando vi o Lucas, caminhando em direção ao palco, provavelmente exercendo seu papel de fã número 1 e querendo ficar na primeira fila. Ele não pareceu ter me visto. Melhor assim.

Os quatro subiram ao palco ao som de aplausos animados e gritos de “Vai, Samuel!”, dos amigos do Samuel. Ele tava com um sorriso confiante no rosto, o tipo de sorriso charmoso que eu adorava, e vestia um casaco de couro que lhe dava uma aparência bem rockstar. A Lana, sorrindo com aquele jeitão distraído, estava linda em um vestido azul com bolinhas brancas, e o Ben, de jeans e camisa polo, parecia o mais nervoso dos quatro. Não conseguia ver a Emily direito, mas dava mesmo pra notar que ela tava andando diferente.

– “Oi, eu sou o Samuel, e nós somos os Amigos do Michelangelo” – ele disse, ao microfone, pra depois agradecer as palmas animadas dos conhecidos da plateia. Estiquei o pescoço e vi o Lucas de frente pro palco, batendo palmas e pulando como todo mundo ali. Com dificuldade, ignorei a vontade imensa de ficar do lado dele, e continuei onde estava.

O Samuel me dizia que, nos primeiros shows, a banda provavelmente tocaria músicas conhecidas, pra empolgar a plateia. Afinal, não teria muita graça tocar músicas próprias sem ninguém pra cantá-las. Por isso, começaram tocando Pink Floyd, e continuaram pra Guns and Roses, Pearl Jam, Red Hot Chili Peppers e Beatles. A estratégia dele deu certo: na terceira música, já tava todo mundo pulando e cantando os versos a plenos pulmões. Foi tão legal ver o pessoal ali, curtindo aquele show, que eu não consegui evitar as lágrimas emocionadas que rolaram pelo meu rosto: eu queria subir naquele palco e dizer a eles o quanto eu os amava (até a Emily!), e o quanto senti a falta de cada um, e queria dizer ao Samuel o quanto eu sentia muito por ter feito o que eu fiz, e o quanto eu queria que as coisas tivessem sido diferentes.

O show continuava, e dava pra ver no rosto do Samuca que ele estava vivendo o sonho dele. Ele sorria, pulava, dançava sozinho, dançava com a Lana, cantava com o Ben. A plateia parecia adorá-lo, e mais de uma vez eu ouvi gritos femininos desesperados na direção dele. Não sei se fiquei brava ou achei engraçado.

Lá pela metade do show, quando já estava muito claro que a noite estava ganha pra banda, me deu uma vontade tão grande de chorar que eu precisei sair um pouco do Clave pra respirar. Eu jamais me perdoaria por não poder viver aqueles momentos com meus amigos. Eu deveria ter insistido, corrido atrás do Samuel, falado com ele tudo o que eu sentia. Ou então devia ter chegado mais cedo hoje, como o Lucas fez, e simplesmente puxado o Samuca de lado e falado com ele. Ou deveria pelo menos ter criado coragem e ficado lá na primeira fila também. Mas  não fiz nada disso, e agora eles estavam lá dentro, tocando, sorrindo e cantando, enquanto eu buscava um taxi pra voltar pra casa, antes mesmo de o show acabar.

Por pouco não voltei. É que, segundos antes de acenar pro taxi, eu ouvi a voz do Samuel no microfone dizendo:

“Agora a gente vai tocar uma música nossa. Eu espero que vocês gostem”.

Por pura curiosidade, entrei novamente no bar. Afinal, era a música deles, e eu precisava ouvi-la. Fui procurar o meu lugar afastado de todo mundo e, do nada, esbarrei no Lucas, que estava com umas três garrafas de água na mão e derrubou todas.

– Oi – ele falou, meio constrangido, enquanto se abaixava pra pegar as garrafas.

– Oi – eu respondi, mais constrangida ainda.

– Pensei que você não viesse! – ele me disse, enquanto se levantava. Foi aí que eu vi o hematoma no olho e o nariz dele ainda um pouco machucado por causa da briga com o Samuel. Quis desesperadamente abraçá-lo.

– Pois é, acabei aparecendo… – eu disse, tentando pensar em qualquer desculpa pra poder me afastar, mas sem sucesso.

– Ei, eles vão tocar a música da Emily!

O Lucas simplesmente se apoiou na parede, numa mensagem clara de “vou ficar aqui e ouvir”. Não soube o que fazer (novidade), e acabei ficando do lado dele, de braços cruzados. Ele não esboçou nenhuma reação à minha decisão. Continuou olhando fixo pro palco.

A música começou, e eu me surpreendi. Esperava alguma coisa pesada, rebelde, cheia de guitarra e bateria, afinal de contas, era a música da Emily. Mas o que começou foi um solo bonito de guitarra e, pra minha surpresa, quem cantou foi a Lana.

Todo mundo ficou em silêncio quando ela começou. Eu sabia que a Lana cantava bem mas, sinceramente, não imaginava que ela pudesse cantar daquele jeito. Parecia que todo mundo ali estava olhando pra ela, bebendo cada palavra que ela dizia. E a música era linda. Tinha um ritmo bom pra dançar a dois, e falava da busca por um amor impossível. O refrão perguntava “quando é que você vai olhar pra mim, me diz?”, que a Lana cantava quase com lágrimas nos olhos. Fiquei totalmente arrepiada, e quando a música acabou, a plateia precisou de uns três ou quatro segundos pra se recuperar do golpe, antes de irromper numa salva de palmas impressionante. Aquilo era realmente bom!

O Samuel, agradecendo, pegou o microfone e disse: – Obrigado, pessoal, essa música foi escrita pela nossa baterista, a Emily, então vamos aplaudi-la um pouco mais!

A plateia obedeceu, e a Emily se levantou pra agradecer. Era a primeira vez que eu a via tão feliz, e fiquei surpresa com aquele sorriso. Ela veio caminhando em direção à plateia, e quanto mais perto chegava, mais o pessoal aplaudia.

E aí, para a surpresa de todo mundo, ela desceu do palco, ainda com o sorriso no rosto, e começou a andar. E, enquanto ela andava, mancando, o pessoal abria espaço. Os aplausos foram morrendo, mas ela não pareceu se importar e continuou, inabalada.

Demorei a perceber que ela mancava em nossa direção. Olhei pro Lucas, e ele ainda estava aplaudindo. A Emily estava cada vez mais perto, e eu estava justamente pensando no que dizer a ela quando ela chegou:

– Emily, parabéns, a música é lin…

E aí eu parei.

Ela passou por mim, agarrou o Lucas pela camisa, e puxou-o pra si. E deu um beijo tão intenso nele que todo mundo aplaudiu de novo. E as garrafas d’água caíram, de novo. E eu sinceramente não acho que alguém tenha ouvido meu grito, e muito menos reparado que eu saí cambaleando dali.

Deixei o bar e entrei direto no taxi, ainda com os aplausos e os gritos da plateia no meu ouvido, com a terrível sensação de que o mundo inteiro estava feliz, menos eu.

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